O SOCIAL também é atávico em mim. Mesmo sendo de classe média, meus pais sempre foram muito generosos com os menos privilegiados. E cresci vendo isto. Digo sempre: a gente é o que lê, e vê. Aos 9 anos criei meu primeiro "projeto social":ensinando a ler e escrever empregadas domésticas, e juntando crianças no corredor do prédio para dar aulas de ciência, Achava tão lindo eles descobrirem outro universo. Morei em vários países, e não me acostumo com crianças nas ruas do Brasil. Não consigo aceitar, me acostumar. Sofro demais com isso. Acho uma loucura isto ser normal. Em 1989 eu tinha um "projeto" itinerante. Eu era militante do PV, então reunia crianças de rua no Castelo, ia andando até Santa Teresa com elas. Levava-as pra tomar banho no Partido (ninguém sabe disto, estão sabendo agora) e ficavam lindos, com as roupas que pedia a amigos que tinham crianças. Então os aprontava e levava para ver circos e teatros. Trabalhei, sempre como voluntaria, em diversas instituições infantis. No Lar de Frei Luis estive por um ano dando assistência a 40 meninas e adolescentes. Mas nunca estive feliz com o que via. Sempre tive um sonho de fazer um projeto social que desse uma direção e determinação para crianças tornarem-se guardiões ecológicos, aprendendo a amar e proteger a natureza e os índios deste país. Assim como foi minha meta de vida. Queria dividir com as crianças a felicidade de ter este objetivo que foi minha estrutura. Em 2003 produzindo um documentário sobre choro, para uma equipe americana, fui parar na favela de Pequerí, em Brás de Pina, ao lado da Penha. Lá, enquanto filmávamos, um garotinho chamado Márcio achou engraçado falarmos inglês. Sentei na calçada e comecei ensiná-lo algumas palavras. Algumas crianças chegaram, e ali mesmo decidi começar dar aulas de inglês. Como não tínhamos espaço, usávamos um terraço. Como não tínhamos cadeiras, e as crianças não paravam quietas, fui criando a aula de INGLÊS EM MOVIMENTO, onde aprendiam brincando. Começava por aulas de meditação na abertura, e tentava através dessas aulas, conversar sobre valores que aprendi em casa e pela vida, e ampliar as possibilidades de novas idéias de amor e respeito entre nós e para todos seus amigos, lá fora. Conceitos de ética, de valorização de todas as raças, uma boa dose de auto-estima e proteção à natureza. Também conversava sobre preconceito, soluções para se libertarem das programações impostas pelo sistema, e de ousarem sonhos e ações. Nunca era em tom sério, resolvia mais no lúdico. Aos poucos fui percebendo que elas tinham várias necessidades. Aliás, a maioria delas nunca tinha sequer saído daquele morro. Isto acontece com as 900 comunidades do Rio, é um absurdo! Então as levamos em diversos peças teatrais, cinema, Parque Laje e Ary barroso, Corcovado, INTRÉPIDA TRUPE, praias, gravaram 3 programas da Xuxa, Cidade das Crianças, festas juninas, conheceram o Vôo livre, Forte Copacabana, etc. e tal. Isto durou 6 anos. Também não tinham contato com livros, a não ser os da escola. Pedi aos meus amigos livros, brinquedos e com a Eusimar, uma moça local que já reunia as crianças para fazer festas nas ruas, formamos nosso primeiro pequeno Centro Cultural, O Centro ficava aberto durante toda semana e lá reuníamos nos fins de semana para conversar sobre nossas vidas, o país, o futuro do planeta, como vivem os índios, ciência, cultura africana, escolas, idéias, festejávamos datas comemorativas, enfim um grêmio recreativo. Meses depois, afogada em lágrimas e indignação, vi este Centro ser desmanchado por "forças ocultas". Fizemos um concurso de poesia cujo premio foi um vôo livre. Coisa boa de ver tanta alegria! Conheci tantos talentos artísticos, poéticos e humanos nessas crianças. Por que o Brasil não valoriza estes seres? Depois montamos uma ONG, para tentarmos arrecadar ajuda de empresas, para que eu pudesse parar de pedir a amigos. Aí começaram os problemas, pois fiquei praticamente sozinha envolvida na burocracia e responsabilidade legal por tudo que acontecia. O peso foi maior do que eu podia carregar. Como é difícil conseguir ajuda para crianças carentes, no Brasil! Você tem todo o incentivo para não dar certo. Nunca tivemos apoio. Paralelamente meus pais adoeceram juntos. Mas mesmo no meio desta turbulência sonhei alto. E, mais uma vez, pedindo via internet ajuda a meus conhecidos, consegui manter o compromisso de 400 reais por mês, aluguei uma casa, pintamos, e montamos de nosso grande e lindo Centro Cultural. Como quem tem boca vai a Roma, ele ficou todo equipado com 300 vídeos DVDs, 1300 livros, brinquedos, bazar, sala de aula, secretaria, toda estrutura montada para 60 crianças que chegou a comportar 200. O Professor Monteiro da FAETEC nos forneceu computadores, e graças a voluntários, tínhamos aulas de informática, capoeira, kicking box, inglês, dança, artesanato, e apoio escolar. Eu dava aula de Ecologia. Uma coisa me indignava: 90% dos pais não viam às reuniões e não participavam deste novo espaço para seus filhos. Desde o inicio minha intenção era dar asas para eles decolarem, sem precisar de co-piloto. Queira muito que este pontapé passasse para suas mãos, para os jovens, para suas famílias e que eles desenvolvessem suas tarefas culturais. Tava tudo lá prontinho. Não queria que dependessem de mim. Mas com a prática vi que não havendo grana, não houve interesse. Nosso Centro já funcionava há quase um ano. Eu estava em plena crise depressiva pela perda de meus pais que partiram praticamente juntos. Precisava de me reestruturar. Não tinha muito mais a dar, no meu coração. Aquela força mágica que tive desde o início, subindo no morro, com tiroteio diário, tráfico, já não tinha mais. Quando se tem força não há limites. Não estava mais agüentando, foram 6 anos. Fiz outra reunião, e mais outra (sempre vazia) propondo para que me substituíssem. Esperei por 4 meses alguma resposta da parte da comunidade, pois já não tinha forças para assumir a direção sozinha. Nenhum retorno. Fiquei triste com esta experiência. Ninguém quis assumir a responsabilidade de um bem para seus filhos. Entreguei a casa. Ainda assim, atualmente, aceitamos convites para passeios culturais. Aos que quiserem convidar nossas crianças para algum evento, é só avisar-nos por email. Veja este vídeo. É a historia do DANILO um menino q nunca havia tocado teclado antes de vir na minha casa, e tocou assim. É realmente impressionante! Está em inglês, porque eu tentei pedir ajuda pra ele no Brasil e no exterior. Nada feito, mas ele chega lá. Hoje, Danilo está no quinto período de piano na Escola de Música Villa-Lobos.
|